Enquanto o Estádio Modelão consome R$ 12,6 milhões dos cofres públicos, a Saúde e a Segurança de Castanhal recebem, somadas, um investimento inferior. Uma análise sobre a política do 'pão e circo' e o real custo das prioridades do Governo do Estado.


Castanhal completou 94 anos e, como é de praxe em anos pré-eleitorais ou festivos, o Governo do Estado desembarcou na cidade com uma sacola de presentes. À primeira vista, motivo de celebração. Porém, basta uma calculadora simples e um olhar atento às necessidades reais da população para que o confete dê lugar à preocupação.

Ao analisarmos os números frios das entregas realizadas nesta semana, a disparidade nas prioridades da gestão estadual salta aos olhos de forma alarmante.

Começamos pela Saúde, a área mais sensível de qualquer administração. Foi entregue, com pompa, o primeiro aparelho de ressonância magnética do Hospital Regional de Castanhal. Um equipamento vital, que evitará o deslocamento de pacientes de 38 municípios para Belém. O investimento? R$ 6 milhões. Um valor justo para uma máquina de alta complexidade que salva vidas.

Passamos para a Segurança Pública, o calcanhar de Aquiles do nosso cotidiano. A nova sede do Comando de Policiamento Regional III (CPR III), que coordena a segurança de mais de 20 municípios, foi entregue. Uma estrutura física completa, com alojamentos, refeitório e áreas administrativas. O custo total? R$ 3,3 milhões (R$ 3.374.194,86 para ser exato).

E então chegamos ao Esporte e Lazer. O Estádio Maximino Porpino, o nosso "Modelão", foi reconstruído. O valor da fatura? Impressionantes R$ 12,6 milhões.

A matemática aqui é cruel e reveladora. O Governo do Estado gastou no estádio o dobro do que investiu no equipamento de ponta para a saúde e quase o quádruplo do que gastou na sede regional da Polícia Militar.

A pergunta que faço hoje é: a reforma de um estádio vale, socialmente, o mesmo que duas ressonâncias magnéticas? Vale o mesmo que quatro quartéis generais da polícia?

O valor de R$ 12,6 milhões torna-se ainda mais questionável quando olhamos para o escopo da obra. O governo lista um novo gramado "Esmeralda" com drenagem "espinha de peixe", uma nova arquibancada na Rua Tiradentes, reformas nas demais arquibancadas, pinturas e adequações de vestiários e lanchonetes.

Não negamos a importância do esporte. O lazer é fundamental. Mas, olhar para uma obra de reforma — onde a estrutura bruta já existia — e ver um custo de quase 13 milhões de reais gera, no mínimo, desconfiança. Será que a "grama especial" e o sistema de drenagem justificam cifras tão astronômicas, superando obras de alta complexidade hospitalar e de segurança?

A política do "Pão e Circo" é antiga, mas em Castanhal ela parece ter sido atualizada com sucesso. Enquanto a população ganha um gramado de primeira linha para esquecer os problemas durante os 90 minutos de jogo, a saúde e a segurança recebem as sobras orçamentárias.

O "Modelão" está lindo, sim. Mas beleza não diminui fila de exame e nem aumenta a sensação de segurança nas ruas. Fica a reflexão para o castanhalense: quais são, de fato, as prioridades de quem assina o cheque com o nosso dinheiro?