Empreendedor de 75 anos lidera novo ciclo da borracha no Pará pagando preço justo a produtores.

Sapatos criados pela empresa Seringô, em Castanhal. — Foto: Lauro Samonek

Um novo ciclo da borracha está sendo desenhado na Amazônia, e o epicentro dessa transformação sustentável fica em Castanhal. Francisco Samonek, um empreendedor paranaense de 75 anos radicado na região desde 1982, transformou a forma de explorar o látex através da Seringô, empresa sediada na Cidade Modelo.

Se no passado o "ouro branco" era exportado de forma bruta, hoje ele é a base de calçados de alta tecnologia ecológica, misturados com outro ícone paraense: o caroço de açaí.

"A atual cadeia de negócios da borracha na Amazônia é mais vantajosa que a da soja, por não destruir o meio ambiente e valorizar o trabalho das populações locais", afirma Francisco.

Tecnologia da Floresta: Borracha e Açaí

Os calçados da Seringô unem saberes tradicionais a inovações químicas. O grande diferencial técnico desenvolvido por Francisco foi a utilização do caroço de açaí triturado em micropartículas.

O empreendedor descobriu que o caroço, geralmente descartado pela indústria, evita o encolhimento da borracha natural. "Cheguei à conclusão de que o caroço do açaí evitava encolhimento. Hoje faço a sola do nosso tênis sem medo", explica Samonek.

Além disso, a empresa patenteou uma vulcanização artesanal. O processo dispensa o uso industrial massivo de água (que chega a gastar 20 litros por quilo na indústria comum) e cria o Cernambi Virgem Ecológico (CVE), uma borracha pura e sem cheiro.

Calçados produzidos pela Seringô. — Foto: Lauro Samonek

Impacto Social e COP 30

A produção vai além da estética. A Seringô compra o látex de cerca de 1.600 famílias, principalmente na ilha do Marajó (Anajás, Portel, Melgaço, Breves e Curralinho). O modelo de negócio inverte a lógica de mercado:

  • Preço de Mercado: R$ 3 a R$ 4 pelo quilo da borracha.
  • Preço Seringô: R$ 20 pagos diretamente ao produtor.

O reconhecimento desse trabalho ganhou destaque internacional. Durante a COP 30, realizada em novembro de 2025 em Belém, a marca de Castanhal patrocinou 1.500 pares de tênis para os voluntários do evento, com apoio do Banco do Brasil.

Poloprobio: O Braço Social

O sucesso da Seringô está atrelado ao Poloprobio (Polo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais), ONG fundada por Francisco em 1998. Enquanto a empresa foca na venda, a ONG capacita comunidades.

A tecnologia social permite que mulheres produzam biojoias e artesanato, garantindo independência financeira. "Essa independência as protege de abusos, permitindo que tomem as rédeas da economia doméstica", destaca o fundador.

Paranaense Francisco Samonek, de 75 anos, vem mudando a forma de explorar o látex na Amazônia. — Foto: Lauro Samonek

Propósito de Vida

Chamado de "doido" por muitos ao apostar na retomada da borracha natural, Francisco diz que a floresta é sua maior motivação. Autodeclarado empreendedor social, ele resume sua trajetória com paixão:

"Muita gente diz que não circula sangue nas minhas veias, mas sim látex. Minha vida inteira se resume a viver a borracha e a Amazônia."