Restrições no mercado chinês e falta de habilitação para venda a outros países afetam duramente o agronegócio paraense; faturamento do setor no Estado pode recuar até 40% em 2026.


A dependência do mercado asiático e a falta de acordos comerciais com outras potências globais vão refletir diretamente no mercado de trabalho de Castanhal e região. Frigoríficos brasileiros com maior exposição à China estão reduzindo o ritmo de abates para se adaptar ao esgotamento das cotas de exportação, mas, no Pará, a situação se apresenta de forma muito mais delicada.

A Mercúrio Alimentos, que possui duas plantas habilitadas para exportar aos chineses — uma localizada em Castanhal e outra em Xinguara —, anunciou que precisará dispensar 197 funcionários em breve. Desde o início do ano, as linhas de abate da empresa já sofreram uma redução de 35%.

O impacto local ocorre porque as indústrias paraenses não possuem as mesmas "válvulas de escape" que frigoríficos de outros estados. Atualmente, o Pará não tem autorização para exportar carne bovina para os Estados Unidos (segundo maior cliente do Brasil), nem para destinos importantes como União Europeia, Chile e México.

"Vamos ajustar a produção para atender a realidade do que nós temos de mercado, que é o Brasil e outros países que estão comprando muito pouco. Esse é um desafio maior", lamentou Daniel Freire, CEO da Mercúrio Alimentos e presidente do Sindicato das Indústrias de Carne e Derivados do Pará (Sindicarne-PA).

O peso da China na economia do Pará

O Estado do Pará possui o segundo maior rebanho bovino do Brasil, com vendas externas totais que chegaram a 222 mil toneladas em 2025. No entanto, a balança é desequilibrada: a China representa 77% das exportações dos frigoríficos paraenses.

O cenário das indústrias no Estado:

  • 8 plantas são habilitadas para embarcar para a China.
  • 12 plantas operam apenas no mercado interno ou para destinos menores.
  • Previsão: Sem o escoamento chinês, o faturamento do setor no Pará deve sofrer uma queda drástica, recuando até 40% em 2026.

Entrave sanitário e burocracia

Empresários paraenses têm pressionado o Ministério da Agricultura para obter o aval de exportação para outros países. O assunto chegou a ser debatido recentemente em Washington (EUA), mas o governo americano ainda não deu o aceite.

O histórico pesa contra o Estado: por muitos anos, o Pará funcionou como "zona tampão" de outras regiões para a febre aftosa, o que o atrasou nas negociações sanitárias internacionais. Hoje, com todo o território brasileiro reconhecido como livre da doença sem vacinação, o setor exige mudanças. "Não há nada que justifique ficarmos fora desses mercados", defende Daniel Freire.

Cenário Nacional: Contrastes e Oportunidades

Enquanto o Pará sofre com restrições, indústrias de outras regiões traçam estratégias diferentes:

  • No Mato Grosso do Sul, a Iguatemi Beef direciona 80% da sua produção aos chineses. Embora não descartem férias coletivas, a empresa foca em incrementar vendas na América Latina, Oriente Médio e EUA, além de investir em marketing voltado para o consumidor chinês para agregar valor.
  • Em Minas Gerais, a Supremo Carnes vive o inverso: tenta habilitar suas plantas para acessar a China. Com unidades paradas pela concorrência desleal com plantas já habilitadas na região, a empresa aguarda a aprovação de uma unidade em Carlos Chagas (MG) para dobrar seu faturamento, que foi de R$ 1,5 bilhão em 2025.

"O Brasil não tem que ter medo de habilitar mais. Temos boi demais, temos frigorífico demais, temos frigoríficos menores que tão crescendo", pontua Sandro Oliveira, presidente da Supremo Carnes.

Com informações de Rafael Walendorff (Xangai e Chongqing/China).

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