Fatores como desmatamento, assoreamento e redução das chuvas explicam por que a "onda gigante" de São Domingos do Capim não atinge grandes proporções desde 2020.
A pororoca amazônica, um dos espetáculos mais impressionantes da natureza, está mudando. O fenômeno, que ocorre quando as águas do Oceano Atlântico encontram a vazão dos rios, tem se tornado mais curto e menos intenso nos últimos anos. Em São Domingos do Capim, no nordeste paraense, moradores relatam que a última "grande onda" — que pode chegar a quatro metros de altura — foi registrada em 2020.
A Ciência por trás da Onda
Para que a pororoca aconteça com toda sua força, não basta apenas o avanço da maré. O pesquisador em geociências David Lopes, do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explica que o segredo está no fundo dos rios. "A pororoca é um fenômeno hidrológico em que as águas oceânicas entram no continente. Essa mudança na profundidade, com trechos rasos que concentram a energia da água, é o que gera a onda. Sem isso, seria apenas uma marola", afirma Lopes, que coletou dados e relatos durante o festival de 2026.
Impactos Ambientais e o Assoreamento
A "engrenagem natural" da pororoca depende de uma combinação delicada entre chuva, profundidade e sedimentos. No entanto, o desmatamento e o assoreamento (acúmulo de terra no leito do rio) estão alterando a hidromorfologia local.
Quando as matas ciliares são removidas, a água da chuva arrasta mais material para dentro do canal. Sem profundidade adequada e com a redução das chuvas, a disputa entre a água doce e a salgada perde o equilíbrio. "Se não tiver chuva, se assorear, se desmatar, não tem pororoca. E isso prejudica toda a economia local", alerta o pesquisador.
O Papel da Lua e o Calendário do Fenômeno
A intensidade da pororoca também está ligada aos astros. Segundo a bióloga Joana Rosar Corbellini, coordenadora de Biomedicina da FAPI, as fases de lua cheia e lua nova são cruciais. Nestes períodos, ocorre a chamada "maré de sizígia".
"O alinhamento entre Sol, Lua e Terra intensifica as forças gravitacionais, resultando em marés mais altas e com maior volume de água. Isso favorece a formação de ondas com maior velocidade e alcance", explica Joana. Geralmente, a força máxima é observada nos três dias seguintes à lua cheia, especialmente nos meses de março e abril, quando o nível dos rios está mais elevado devido ao período chuvoso.
Por que parece uma onda única?
A percepção de uma única parede de água ocorre porque a energia da maré se concentra em uma frente principal, provocando uma mudança brusca na velocidade do rio. Embora existam turbulências atrás da crista, é essa frente que domina a paisagem. Agora, cientistas e moradores monitoram o clima e a saúde dos rios, esperando que o equilíbrio ambiental seja preservado para que a "grande frente" volte a encantar o Pará.

