Em meio à pressão das bolsas internacionais e altos custos de insumos, cacauicultores do Pará buscam valorizar o terroir amazônico para enfrentar a baixa nos preços.
![]() |
| Produtor de cacau não tem caixa e ainda é pressionado pelos custos de insumos, diz Osni de Azevedo Ramos — Foto: Eliane Silva/Globo Rural |
O cenário atual da cacauicultura em Castanhal é de alerta. Para o produtor Osni de Azevedo Ramos, o preço pago pela arroba do cacau hoje é motivo de desânimo. Com uma produção anual de 32 toneladas de amêndoas em sua fazenda de 400 hectares, Ramos destaca que o setor vive um momento de "estrangulamento" do fornecedor pela indústria moageira.
A pressão do mercado global e os custos locais
Segundo o produtor, o valor recebido pela amêndoa é regido pelas bolsas de Nova York e Londres, deixando o agricultor sem poder de influência sobre a cotação. Somado a isso, as moageiras têm aplicado um deságio que, segundo ele, inviabiliza a atividade.
"O produtor de cacau não tem caixa e ainda é pressionado pelos custos de insumos que subiram muito com a guerra, especialmente os fertilizantes e combustível", afirma Osni. "O que a indústria faz hoje é dar um tiro no pé. Está matando seu fornecedor."
Diferença de preços: O valor da qualidade
A disparidade de preços no mercado paraense é evidente. Enquanto intermediários pagam cerca de R$ 9,00 pelo quilo das amêndoas comuns, o cacau fermentado e de alta qualidade produzido por Ramos chega a ser vendido por R$ 40,00.
Mesmo assim, o valor atual representa uma queda em relação ao ano passado, quando ele alcançou a marca de R$ 55,00. As análises clínicas do seu produto revelam um perfil sensorial diferenciado, com notas de nozes, ameixa e baixo amargor, características típicas do solo amazônico.
Avanços no setor
Apesar das dificuldades, 2026 trouxe avanços legislativos e de mercado:
- Lei do Chocolate: Aprovação do aumento para 35% do percentual mínimo de cacau no chocolate.
- Importação: Suspensão das importações de cacau africano.
- Foco no Terroir: Conscientização sobre a necessidade de produzir amêndoas de qualidade superior para exportação.
O Outro Lado: Indústria justifica ajuste
A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), por meio de sua presidente Anna Paula Losi, explica que o setor enfrenta um ajuste após o pico histórico de preços registrado em 2024.
Losi ressalta que a formação de preços no Brasil reflete a desaceleração da demanda global por derivados e as acomodações do mercado internacional. "A indústria depende diretamente da produção nacional e não tem interesse em desvalorizar o fornecedor. O desafio é garantir competitividade para continuar absorvendo o cacau produzido no país", pontua a presidente.
Conclusão: A saída é o "Cacau de Ouro"
Para Osni Ramos, o futuro do cacau em Castanhal e no Pará reside na especialização. A grande variabilidade genética e o terroir único da região permitem que o produtor brasileiro venda seu produto a "preço de ouro" no mercado internacional, desde que haja investimento em qualidade e parcerias sólidas na cadeia produtiva.
