Capital paraense ocupa o 94º lugar entre as 100 maiores cidades do país analisadas pelo Instituto Trata Brasil. Cidades como Ananindeua, Parauapebas e Santarém também integram a lista dos 20 piores municípios, refletindo décadas de subinvestimentos e impactos severos na saúde e no meio ambiente.
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| Na rua Juscelino Kubitschek, em Outeiro, a população sofre com a falta de saneamento. (Igor Mota) |
Belém possui um dos piores serviços de saneamento básico do Brasil, de acordo com o recém-divulgado Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil (ITB). A capital paraense está entre os municípios com os maiores gargalos na oferta à população, ocupando a 94ª posição entre as 100 cidades analisadas. No recorte das 20 piores colocadas, Belém aparece em 14º lugar.
Os dados revelam um déficit alarmante na cobertura de coleta de esgoto: apenas 25,27% da população belenense é atendida pelo serviço. Em um universo de 1.398.531 habitantes, isso significa que cerca de 353.409 pessoas têm acesso ao tratamento, enquanto mais de 1 milhão de moradores (1.045.122) convivem com a falta de infraestrutura básica.
A realidade atual contrasta diretamente com as metas do Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020), que estabelece que, até 31 de dezembro de 2033, 99% da população brasileira deve ter acesso à água potável e 90% à coleta e tratamento de esgoto.
O Reflexo nas Ruas: A Realidade da Terra Firme
A falta de infraestrutura não é apenas um número, mas uma realidade dura para quem vive na periferia e em áreas centrais. A poucos metros do centro da capital, moradores da passagem Vilhena, no bairro da Terra Firme, enfrentam diariamente a falta de drenagem e de esgotamento sanitário.
"O saneamento básico está em condições péssimas, totalmente insuficiente."
— Cristina de Deus, 62 anos, feirante.
Para a dona de casa Nazaré Ferreira, de 66 anos e moradora do bairro há cinco décadas, o cenário é de desesperança. Em dias de chuva, o esgoto a céu aberto se mistura à água acumulada, invadindo a via e as casas:
"Sempre foi assim, só vem o governo para enganar. Eles botam aqui uma ‘água’ de asfalto. Quando chove, vira um rio, como se estivéssemos na beira do Ver-o-Peso. Não tem saneamento. Não tem nada."
Baixos Investimentos e Colapso Ambiental
A presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, destaca que o estado do Pará ainda enfrenta desafios profundos, diretamente ligados à falta de repasses históricos para o setor.
"Ananindeua, Belém e Santarém são municípios que, no ranking do saneamento básico, têm indicadores bastante ruins, com desafios principalmente em relação à coleta e tratamento dos esgotos. São municípios que, historicamente, também investiram pouco."
— Luana Pretto, presidente-executiva do ITB.
Em 2026, a média de investimento dos 20 piores municípios foi de apenas R$ 77,58 por habitante (66% abaixo da média nacional). O balanço aponta que Belém investiu R$ 93,02 por habitante em 2025. Outras cidades paraenses apresentam números ainda menores: Ananindeua com R$ 46,51 e Santarém com R$ 37,35 — valores muito distantes dos R$ 223,82 preconizados pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab).
Impactos nos Corpos Hídricos
As consequências desse déficit transbordam para o meio ambiente, causando o que especialistas chamam de "morte funcional" dos rios e canais urbanos. O especialista em meio ambiente, Raimundo Albuquerque, alerta para a contaminação crítica da Baía do Guajará e do Rio Guamá:
"Os canais e igarapés que cortam a cidade viraram coletores de esgoto a céu aberto. (...) Na Baía do Guajará e no rio Guamá já se mede contaminação fecal incompatível com qualquer uso recreativo ou pesca minimamente segura. O gargalo histórico decisivo sempre foi de gestão, pois décadas de subinvestimento, descontinuidade administrativa e ausência de metas vinculantes deixaram a cidade na situação atual de colapso sanitário."
Respostas do Setor Público e Privado
A Redação Integrada do Grupo Liberal buscou posicionamento das autoridades. A Prefeitura de Belém respondeu em nota que "vem atuando efetivamente na melhoria do saneamento da capital paraense por meio do Programa de Saneamento da Bacia da Estrada Nova (Promaben) e pelo programa Viva Bairro". As prefeituras de Ananindeua e Santarém ainda não retornaram.
Pelo lado da iniciativa privada, a concessionária Águas do Pará afirmou, em nota, que está conduzindo o maior investimento da história da Amazônia Legal, orçado em R$ 18,7 bilhões ao longo de 40 anos. O projeto visa ampliar e modernizar sistemas em 126 municípios, incluindo Belém, Santarém e Parauapebas. A empresa reforça seu compromisso com as metas de 2033, destacando que já existem intervenções em andamento para redução de perdas, modernização e obras em áreas vulneráveis.
Tabela: Os 20 Piores Municípios no Ranking do Saneamento de 2026
Confira a posição das cidades brasileiras com os maiores desafios estruturais no setor, segundo o Instituto Trata Brasil:
| Posição Nacional | Município | Estado |
| 81º | Juazeiro do Norte | Ceará (CE) |
| 82º | Manaus | Amazonas (AM) |
| 83º | Olinda | Pernambuco (PE) |
| 84º | São José | Santa Catarina (SC) |
| 85º | Paulista | Pernambuco (PE) |
| 86º | Maceió | Alagoas (AL) |
| 87º | São João de Meriti | Rio de Janeiro (RJ) |
| 88º | São Gonçalo | Rio de Janeiro (RJ) |
| 89º | Duque de Caxias | Rio de Janeiro (RJ) |
| 90º | São Luís | Maranhão (MA) |
| 91º | Ananindeua | Pará (PA) |
| 92º | Jaboatão dos Guararapes | Pernambuco (PE) |
| 93º | Macapá | Amapá (AP) |
| 94º | Belém | Pará (PA) |
| 95º | Belford Roxo | Rio de Janeiro (RJ) |
| 96º | Parauapebas | Pará (PA) |
| 97º | Várzea Grande | Mato Grosso (MT) |
| 98º | Rio Branco | Acre (AC) |
| 99º | Porto Velho | Rondônia (RO) |
| 100º | Santarém | Pará (PA) |
Fonte: Instituto Trata Brasil (ITB)
