Produzida no Pará pela Companhia Têxtil de Castanhal, a peça de 800 metros segue para Belém, onde passará por vistoria no sábado antes de ir para exposição.

Por Alechandre Viana

Nesta quarta-feira (23), Castanhal sedia a entrega oficial da corda do Círio de Nazaré 2026 à Diretoria da Festa de Nazaré (DFN), em cerimônia agendada para as 9h. Símbolo maior da devoção dos paraenses, a estrutura de 800 metros de comprimento foi produzida pela Companhia Têxtil de Castanhal (CTC) e, após a solenidade, segue em transporte para Belém, com previsão de chegada às 11h30.

Na capital paraense, a peça ficará armazenada na Estação Luciano Brambilla até o próximo sábado (26). A partir das 15h, equipes da DFN e da Guarda de Nazaré realizarão a vistoria técnica no Colégio Santa Catarina de Sena, no bairro de Nazaré. A avaliação inclui a conferência minuciosa das condições dos nós, argolas e estações metálicas, além da medição de segurança dos 800 metros de extensão.

Exposição ao público até outubro

Após a aprovação na vistoria, a corda será dividida em duas partes de 400 metros:

Trasladação: A seção destinada à procissão noturna ficará exposta na Estação Luciano Brambilla.

Círio de Nazaré: A seção da grande procissão de domingo será levada para a Estação das Docas.

Ambas as partes permanecerão abertas à visitação pública até o dia 11 de outubro.

Produção 100% paraense e valorização da agricultura familiar

Pelo quarto ano consecutivo, a corda é fabricada integralmente no Pará e doada pela CTC à organização da festa. O processo produtivo regional começou em 2023, substituindo o material de sisal que até 2022 era vindo de Santa Catarina.

Feita de fibra de malva, a corda possui 60 milímetros de diâmetro. A matéria-prima é proveniente do cultivo de agricultura familiar em mais de 20 municípios paraenses, beneficiando diretamente mais de mil famílias de produtores rurais.

Segundo a CTC, o projeto da corda do Círio 2026 teve duração de sete meses (três de planejamento e quatro de produção industrial), mobilizando mais de 480 colaboradores. Para suportar o esforço dos fiéis durante as procissões, os pontos de maior pressão — como os nós e as argolas que se conectam às estações de duralumínio — receberam reforços especiais e testes de tração.

História e tradição do símbolo do Círio

A corda passou a fazer parte da festividade em 1855, quando uma enchente da Baía do Guajará alagou o trecho entre o Ver-o-Peso e as Mercês. Com os animais que puxavam a berlinda atolados na lama, um comerciante emprestou uma corda para que os fiéis ajudassem a rebocar o carro.

A prática foi mantida pontualmente em dias de chuva até 1885, quando o arcebispo Dom Macedo Costa oficializou o uso da corda na procissão, substituindo em definitivo a tração animal.

A tradição chegou a ser interrompida em 1926 pelo arcebispo Dom Irineu Joffily, mas retornou em 1931 após forte mobilização popular e apoio do então interventor do Pará, Magalhães Barata.

Outra mudança marcante ocorreu em 2004: o formato antigo em "U" (com as pontas presas à berlinda) foi substituído pelo formato linear com cinco estações metálicas, adotado para garantir maior segurança aos promesseiros.

O Círio de Nazaré é organizado pela Arquidiocese de Belém, Basílica Santuário de Nazaré e Diretoria da Festa de Nazaré, sendo reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.